14 ANOS DE PERÚ

In 33 anos do Perú Molhado por Eva LartigueDeixe um comentário

Mir entrevistando2Por Miriam Danowski

As datas estão confusas.O que sei é que, numa decisão intempestiva, lá pelo final dos anos 1980, troquei um emprego estável e bem remunerado no governo do Estado, onde trabalhava, no Rio, por um projeto incerto, mas muito atraente, de uma vida nova, sem patrão e sem horários, numa cidadezinha bucólica, à beira-mar – Búzios.

É que, nessa época, recém-casada com Anibal, sócio do Marcelo, no Perú, que então saía quinzenalmente, apoiei sua idéia de vir pra Búzios e se dedicar mais ao jornal, escapando da rotina às vezes massacrante dos grandes jornais. Ele era um jornalista da antiga, formado na prática diária das redações, quando nem havia universidades para preparar esses profissionais. Já havia passado por quase todos os de maior circulação – Correio da Manhã, Folha de São Paulo e O Globo.

Eu, arquiteta e urbanista, tinha terminado há pouco tempo o mestrado em Planejamento Urbano e Regional. Também trabalhava com Artes Visuais, especialmente com video-arte. Quando chegamos, olhei em volta para ver o que podia fazer. Como urbanista, só cabia trabalhar no governo e, como Búzios ainda não tinha se emancipado, só se fosse em Cabo Frio. Isso eu não queria. Então fiz alguns projetos de arquitetura, em parceria com arquitetos já estabelecidos. Mas acabei mesmo me envolvendo com a dinâmica do jornal. Primeiro, ajudando em matérias que tinham a ver com a vida urbana e o planejamento da cidade, depois tentando organizar as contas – tarefa ingrata e complicada, pois desagradava a gregos e troianos (Marcelo e Anibal), principalmente quando se tratava de controlar as permutas. Na verdade, era como se estivesse colocando em risco a irreverência, o improviso e outros atributos, que eram a identidade do Perú, que tinha apurado durante anos a fio a arte de se equilibrar sobre o instável. E era isso mesmo. Só que havia também uma vontade de se solidificar. O Perú já nascera forte como instituição, mas faltava se afirmar como empresa.

Aconteceu que Búzios foi mudando. Não tinha nem 10 mil habitantes quando cheguei e tinha mais do que o dobro quando saí, há 5 anos atrás. Hoje está com quase 30 mil (fora das temporadas). Ou seja, triplicou a população.

Aquela sensação de que Búzios não era Brasil, que havia naquela época – uma espécie de ilha da fantasia – foi desaparecendo pouco a pouco. Lembro do Perú dizendo que Búzios nunca perdia uma Copa, porque tinha uma etnia tão múltipla, que saía sempre vencedor. Aliás, sobre esse cosmopolitismo, o Marcelo fez uma exposição, um livro e um filme, dando conta das então mais de 50 nacionalidades diferentes de estrangeiros que elegeram Búzios para morar – uma cidadania por escolha, cada um com suas razões. Adorei que ele tenha dado o título de “Praia de Babel” a este trabalho, horizontalizando a torre que originou o nome. Daí viria a alternância entre harmonia e cizânia, tão característica de Búzios, um lugar complexo de se entender – quer seja por urbanistas, sociólogos, antropólogos, jornalistas ou políticos. Do tipo “ame-a ou deixe-a”.

O Perú teve que acompanhar toda essa mudança e funcionar como um grande jornal, sem ser. Foi experimentando várias peles, várias roupas. De “sai quando pode”, passou a mensal, quinzenal, semanal, voltou pra quinzenal. Chegou a sair diariamente, durante 6 meses, na contra-capa das edições do Daily Post, em inglês, inicialmente bancado pelo então sócio-atleta Umberto Modiano e depois com anúncios de diversos comerciantes e empresários da cidade. Nessa época, eu ainda morava no Rio e, além de selecionar entre as matérias que já tinham saído as de perfil mais adequado ao público de língua inglesa, diagramava a página, depois de traduzida. Aliás, essa foi outra das muitas funções que eu tive no jornal. A respeito, uma curiosidade. O jornal era ainda feito do jeito artesanal. O Anibal escrevia as matérias na sua Olivetti verde, com as entrelinhas bem afastadas, porque a revisão, feita por ele mesmo, com caneta, precisava desse espaço. O Marcelo, além de seu papel de editor, dono de um faro-fino de primeira para identificar as pautas, as matérias mais oportunas, era quem pensava também em como financiar a edição. E isso dava um trabalho enorme, cada novo jornal era um corre-corre, torpedos (naquele tempo, torpedos eram cartas e não mensagens eletrônicas) enviados aos potenciais parceiros, telefonemas estratégicos, jogos de sedução (modo de dizer) e convencimento. Estando a grana da gráfica garantida, ainda era preciso captar as graninhas menores, vindas dos pequenos anúncios, de onde devia sair o que os sócios precisam para sobreviver. A arte desses anúncios – fotos, ilustrações – iam para a gráfica nos bolsos do Marcelo e não foram raras as vezes em que se perderam, ou que se perderam os textos, causando problemas que se amontoavam logo após cada edição, já que os anunciantes se recusavam a pagar até que se consertasse a publicidade no jornal seguinte.

Foi então que propus informatizar o Perú. Marcelo e Anibal não tiveram dúvida e responderam que não, de jeito nenhum. Resolvi, então, comprar um computador pra mim mesmo. Era um PowerMac, gigante, que congelava toda hora. Eu, que nunca tinha aprendido informática, tive que me virar. Fiz um estágio de uma semana no escritório de minha irmã Sula, que é designer e aprendi o suficiente para tentar, começando pelos anúncios, que ficaram mais caprichados. E quando a edição ia fechar, chegava uma diagramadora profissional, para acelerar o processo. Depois o jornal entrou definitivamente na era digital e foi se esmerando, com o empenho do Alan, da Carol e de tantos outros que já passaram pelas muitas redações que o Perú já teve na cidade – Manguinhos, Ossos, Rua das Pedras, Praça Santos Dumont (em 2 lugares). Sem falar nas redações ocasionais, tipo a Maré Mansa (estratégico para cobrar anúncios dos que saíam do Bradesco, que ficava em frente, ao lado do restaurante do Pacato), e o Ponto de Encontro do Alberto Fantini e da Edi, na entrada de Geribá, quartel-general do movimento emancipacionista.

Também vendi anúncios. Não tinha a mínima queda para isso, mas depois de muita insistência, o Marcelo me convenceu. Ele tinha razão no empenho, porque foi aí que eu comecei a conhecer de dentro o Perú, de que maneira era recebido pelas forças econômicas da cidade, qual era sua base social de apoio.

Como a equipe era pequena, todo mundo fazia tudo. Eu, que sempre gostei de escrever, tive que me exercitar na expressão e na rapidez, que em jornal nunca há tempo a perder. Com o Anibal, aprendi como ir direto ao assunto no texto, não adjetivar, garantir a leveza e, sobretudo, o humor. Com o Marcelo, apesar de seu português quebrado, aprendi como se pode impactar e comover.

Tudo isso para dizer de algo que, desde o início, me encantou no Perú. Nenhum dia era igual ao outro na nossa lida de escrever, fotografar, entrevistar, vender anúncios, conversar, conversar, conversar.

Sempre havia uma idéia nova, um projeto novo. Um livro, um guia turístico, um mapa, um filme, uma camiseta, uma edição em inglês, em espanhol (a primeira, número zero, foi em portunhol) e até em japonês.

De tamanho e forma, o Perú também mudou, ao longo do tempo. Tablóide, standard, tablóide esticado, revista, capa colorida, com 16, 20, 24, 48 páginas, com ou sem encarte, dependendo da grana. Aliás, por falar em encarte, lembro de uma proposta feita ao O Globo que, na época, tinha umas edições regionais, para que estas fossem encartadas no Perú e não vice-versa.

Até de nome, o Perú já mudou. Um dia virou “Armação” – acho que foi idéia do Renato Pacote, na época pretendente a sócio, que queria vender anúncios para a CocaCola, que podia não aprovar a veiculação num jornal com um nome tão estranho…

Quando separei do Anibal em 2001, separei também do jornal. Sete anos ainda fiquei em Búzios, voltando a trabalhar com arquitetura e depois na Prefeitura, no segundo governo do Mirinho e no governo seguinte, do Toninho, quando Búzios elaborou seu Plano Diretor, com Octavinho e Alice, na Secretaria de Planejamento.

Há cinco anos no Rio, com meu novo companheiro, também arquiteto e urbanista, agora são as questões desta metrópole que mais me envolvem e desafiam. No entanto, Búzios permanece, como forte referência afetiva e âncora de muitas lembranças boas. Afinal, foram ao todo 21 anos, dos quais 14 no Perú, do qual sou eterna torcedora.

Deixe um Comentário