A Guerra, a lama, a grana

In Búzios, Noticias por Eva LartigueDeixe um comentário

Thomas Speroni 

tio-sam-chorando-Passeando por uma rede social, me chamou a atenção o link para uma reportagem sobre a corrupção nas forças armadas americanas.Se FHC se disse (hipocritamente) envergonhado pelas tenebrosas transações na Petrobras, Tio Sam certamente também soltaria sua pérola ao tomar ciência da sujeira que povoa o “complexo militar-industrial” dos Estados Unidos.

Em suma, nada que nós, brasileiros, nem nenhum outro povo de qualquer paísdo mundo já não conheça. Nas palavras da própria reportagem: “Pagamento de propina para a concessão de contratos, pedidos de material faturados e jamais entregues, esquema de corrupção com alcance internacional que chega, por vias indiretas, ao quintal do governo federal dos EUA.”. Basicamente é o que estamos vendo aqui na Petrobras, e é o que se vê nos grandes escândalos de corrupção planeta afora. No caso americano, segundo a revista, a roubalheira correu solta no período das operações militares no Iraque e no Afeganistão. Fala-se em cerca de US$ 31 bilhões afanados.

Lá pelas tantas a reportagem informa que a moeda de troca dos corruptos não foi somente montantes de dinheiro: eles foram agraciados também “com a contratação de prostitutas e viagens em primeira classe para hotéis de luxo.”. Detive-me por um instante nesse ponto. Lembrei-me de algumas quantas vezes em que a contratação de prostitutas foi encontrada nas investigações de esquemas de corrupção, e quantas das muitas vezes essa informação provocou um bônus moralista à revolta pela roubalheira.

Dinheiro, viagens de primeira classe, hotéis de luxo… Tudo pago com dinheiro público. Ah, mas quengas já é de mais!

Por que?

downloadPor que pagar prostitutas com dinheiro público é mais repugnante e mais revoltante que pagar bens materiais e turismo? Ora, o sexo é um prazer, como muitos outros; é mais ou menos prazeroso, para alguns, que ter a conta bancária volumosa, fazer turismo de primeira classe ou ter mansões e carrões. O dinheiro compra tudo isso. E compra o sexo também. A prostituição é uma das profissões mais antigas que existe. Vários países já a regulamentaram. Prostitutos e prostitutos podem ter carteira assinada, pagam imposto de renda e contribuem para a previdência, como qualquer outro cidadão que desenvolve uma atividade profissional, como um advogado, por exemplo (vejam só que curioso: quando os corruptos são pegos, recorrem aos advogados para livrar-lhes a cara da condenação pelo crime cometido. Os advogados, corretamente, prestam seus serviços aos corruptos – afinal, é seu trabalho –, e isso é visto como ponto louvávelde sua trajetória profissional, vide Márcio Thomaz Bastos. Já com os profissionais do sexo, prestar serviços aos corruptos é motivo de dupla vergonha).

Mas por que, ainda assim, principalmente em sociedades mais conservadoras, como a brasileira,pagar serviços de prostituição com dinheiro público é mais infame que comprar bens materiais e serviços turísticos ou advocatícios com os vinténs roubados?

Qual é a diferença entre a puta e o carrão? Moral.

É uma diferença pura e simplesmente de julgamento moral. No moralismo do nosso paradigma judaico-cristão, o sexo deixa de ser o que realmente é – um dos vários meios pelos quais gozamos – e passa a ser doutrinado por um modelo alheio ao que temos de humano. Se não for no casamento, e bem morninho, é abjeto, repugnante, sujo, imoral, ilegal, pecaminoso, infernal, diabólico. Já a corrupção, não: é apenas uma conduta considerada indesejável e criminosa pelo Estado.

No final dessas contas corruptas, minha pergunta é: quem são os verdadeiros putos? Aqueles que são previamente contratados para desempenhar uma atividade profissional (e, como toda atividade profissional, são remunerados por isso), ou os que assaltam toda uma nação?

O Dicionário Michaelis diz que há dois sentidos para o verbo “foder”: 1) copular; 2) prejudicar. Prostitutos e corruptos: ambos fodem por dinheiro, cada um à sua maneira. Por que um é mais imoral que o outro? Muito se fala dos cidadãos da prostituição, mas sãoos cidadãos da corrupção estão (nos) fodendo.

Se me permitem, tenho mais uma pergunta: quando é que nós vamos começar a foder eles pelo (nosso) dinheiro?

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