A loucura que deu vida a arte

In Arte, Especial Minamata, Japão por Eva LartigueDeixe um comentário

yayoiPor Michelle Mattos

A arte e a loucura, em determinados casos, então conectados por uma linha tênue. A confusão mental de uns, traz uma percepção e visão diferente da realidade, o que resulta em caminhos inusitados para a descrição do mundo. O que é o caso de Yayoi Kasuma, considerada uma das maiores artistas pop japonesas, vive há mais de 30 anos em uma instituição psiquiátrica em Tóquio e utiliza de alucinações, transtornos e obsessões para a criação de obras de arte. Kasuma nasceu em Matsumoto, no Japão, sofre de transtorno compulsivo obsessivo desde a infância e ganhou a primeira exposição individual no Brasil, no dia 12 deste mês, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

Por relatos da própria artista, a mãe de Yayoi Kasuma era uma mulher de negócios e não aceitava a veia artística da filha, chegando a agredi-la fisicamente, o que piorou o estado emocional e psíquico de Yayoi. Como fuga da realidade, começou a expressar no papel, bolinhas e pontos do infinito, mostrando às pessoas como ela enxergava o mundo. A obsessão por bolinhas, fez a artista, ficar conhecida como “A princesa das bolinhas”.

– Minha arte é uma expressão da minha vida, sobretudo da minha doença mental, originário das alucinações que eu posso ver. Traduzo as alucinações e imagens obsessivas que me atormenta em esculturas e pinturas. Todos os meus trabalhos em pastel são os produtos da neurose obsessiva e, portanto, intrinsecamente ligado à minha doença. Eu crio peças, mesmo quando eu não vejo alucinações. – afirma Yoyiu Kasuma.

Aos 27 anos, Kusama decidiu ir para os Estados Unidos, a pedido de uma grande amiga e artista, Georgia O’Keeffe. Nesse período, o Japão ainda se recuperava da guerra e Yoyoi percebeu que fora do país poderia ganhar mais reconhecimento exercendo a arte. Em Nova Iorque, trabalhou com grandes nomes da Arte Modera e Contemporânea, como Andy Warhol, Joseph Cornell e Donald Judd e logo passou a comandar o movimento da vanguarda. Em 1973, Yoyoi Kasuma volta para o Japão por problemas de saúde, o transtorno compulsivo obsessivo havia se agravado e ela se internou, por vontade própria em uma clínica psiquiátrica onde vive até hoje.

Somente há dois anos, o trabalho da artista ganhou as primeiras grandes exposições internacionais. Em 2011, no Reina Sofia, em Madri, e no Centro Pompidou, em Paris; e, em 2012, na Tate Modern, em Londres, e no Whitney Museum, em Nova Iorque; além de produzir estampas para a grife Louis Vuitton.

Hoje, aos 84 anos, vive o auge da fama internacional. É a terceira artista mulher que mais ganhou dinheiro com o trabalho, atrás apenas de Joan Mitchell e Mary Cassatt. Recentemente, a exposição da artista no Museu de Arte Latino-Americana, em Buenos Aires, bateu recorde de público, em pleno inverno.

“Obsessão infinita” conta com cerca de 100 obras, produzidas de 1949 a 2012, incluindo pinturas, trabalhos em papel, esculturas, vídeos, apresentações em slides e instalações e chega ao Rio de Janeiro, com a promessa de sucesso.

Entre os maiores destaques está o “Campo de falos” — um jardim de falos decorados com bolas vermelhas e brancas numa sala espelhada. Outro destaque é a instalação “Cheia de brilho da vida”, em que as bolinhas aparecem na forma de lâmpadas que se acendem e apagam em cores diferentes. Na entrada da exposição, cada visitante recebe uma cartela de adesivos, todos de bolas coloridas, para decorar outra instalação, a “Sala da obliteração”, originalmente toda em branco.

Ao fim da exposição, 36 telas pintadas entre 2012 e 2013 mostram que Yayoi Kasuma continua trabalhando no ateliê dentro da clínica psiquiátrica que vive. A artista comprova que a expressão artística pode amenizar e até curar os sintomas e seqüelas dos transtornos mentais e afirma que os trabalhos que desenvolve não são apenas ilusões e sonhos interiores, mas também uma forma de evitar suicídio.

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