Ao poeta, com amor de passarinho

In Brasil, Búzios, Noticias, Rio de Janeiro por Eva LartigueDeixe um comentário

Por Janir Júnior

Manoel-de-BarrosSeria, no mínimo, desrespeitoso querer fazer um texto literário para homenagear Manoel de Barros, morto em 13 de novembro, aos 97 anos. Nem mesmo de homenagens o grande poeta gostava. Então, só me resta escrever uma espécie de carta de amor ao escritor cuja poesia Guimarães Rosa comparava a um doce de coco. Manoel, seus óculos de grossas lentas, a escrita feita à mão, a reclusão no meio do mato, a ligação com a natureza, comunhão visceral e inventiva com as palavras. A essência do amor.

 Há algum bom tempo, sou amante do poeta, de suas palavras, do seu jeito único e singelo de encarar a vida. Mas foi apenas no ano passado que, ao entrar numa livraria do Largo do Machado, vi num canto sem muito destaque “Manoel de Barros – Poesia completa”. Cheirei as páginas e comprei. Desde então, virou uma bíblia que serve para refletir, arrumar as gavetas da alma e do coração. Recomendo a leitura em pílulas.

O livro obedece uma ordem cronológica, de Poemas Concebidos sem pecado (1937), passando por Arranjos para assobio (1980), o Livro de pré-coisas (1985), os infantis Exercício de ser criança e Poeminha em Língua de brincar (1999 e 2007). O leitor não necessariamente precisa obedecer a mesma cronologia.

“Fazer pessoas no frasco não é fácil/mas se eu estudar ciências eu faço./Sendo que não é melhor do que fazer/pessoas na cama/ Nem na rede/Nem mesmo no jirau como os índios fazem (No jirau é coisa primitiva, eu sei, mas é bastante proveitosa)/ Para fazer pessoas ainda não/inventou nada melhor que o amor./Deus ajeitou isso para nós de presente./De forma que não é aconselhável trocar o amor por vidro/, diz “O Amor”, da série o Fazedor de Amanhecer.

Sobre a morte, certa vez Manoel a definiu: “Pelas pessoas que se vão, pelas coisas boas que perdemos. Muitas vezes vivemos para perder, principalmente na velhice. O tempo não morre. O tempo nasce. Não devemos ter esse sentimento melancólico pelo tempo que passa. Devemos estar abertos para o novo, para o futuro, para o tempo que vem.”

Ele se foi. Pelo Google (onde mais?), é possível quem desconhece Manoel saber histórias corriqueiras: lançou mais de 25 livros. Deixou Stella, companheira de toda uma vida, uma filha, sete netos e cinco bisnetos. O poeta também teve outros dois filhos que morreram de forma trágica, um abalo forte na vida do escritor. Há anos, ele vivia recluso em Campo Grande (Mato Grosso do Sul). O poema “A turma” (2013), foi o último escrito pelo autor, que ganhou o Prêmio Jabuti duas vezes, em 1990 e 2002.

Recomendo, então, para quem for navegar na rede em busca de Manoel que assista ao documentário “Só dez por cento é mentira”, de Pedro Cezar. Um belo retrato até onde o poeta se deixou invadir na sua privacidade.

São singelas e puras, por muitas vezes “desconexas”, inventadas, as palavras de Manoel de Barros. Mas são de amor até quando ele fala de borboletas no paletó. A terra, a natureza, os bichos, o rio. O simples está nos textos de Manoel.

Em 1986, o poeta Carlos Drummond de Andrade declarou que Manoel de Barros era o maior poeta brasileiro vivo. Agora, é o maior poeta brasileiro morto. Morto? Cuidado para não esbarrar com Manoel no quintal da sua mente ou coração, ou sentir a alma ser tocada pelos passarinhos. As estrelas que se cuidem.

Deixe um Comentário