Carta aberta

In Brasil, Búzios, Cabo Frio, Noticias, Rio de Janeiro por Eva LartigueDeixe um comentário

Por Janir Júnior

DSC05033Do salão do Bar do Serafim, Rua Alice, em Laranjeiras, zona sul do Rio, é possível avistar, do outro lado da estreita rua, uma agência do Correios. A porta de ferro fechada, uma luz quase sem luz, uma sensação de vazio e vamos matutar: afinal, quando foi a última vez que você escreveu, de próprio punho, no deslizar de uma caneta Bic, uma carta? De amor, de amizade ou qualquer coisa que o valha?

A minha última vez tem cerca de ano e meio. Já separado, escrevi alguns parágrafos para a mãe de meu filho. Nas tortas linhas, nada de pedido meloso de reconciliação, pieguices ou sessão nostalgia. Era apenas um desejo de feliz dia das mães. Mais uma data esdrúxula voltada para o comércio, mas que, ao menos, serviu para despertar a vontade de redigir a mão um agradecimento pela geração do mais puro amor, um filho. Junto, envie algumas fotos, também impressas em papel.

O uso de cartas escritas à mão foi soterrado pela quantidade de e-mails que enviamos diariamente de forma acelerada, impessoal, quase automática. Frieza. Afinal, você lembra como é um envelope, onde se coloca o destinatário e remetente? O cheiro do papel, o selinho colado ali no alto à esquerda? Ainda existem colecionadores de selos?

Na carta escrita à mão, você tenta entender a pessoa através das letras. Um erro, um rasuro, o conserto da palavra colocada fora do contexto, a emoção no tremor das mãos. Existe sentimento, “esforço” e nuances que não transpassam em um gélido email. O filme Ela (ou Her) em que a profissão do protagonista Theodore (Joaquin Phoenix) era escrever lindas cartas em nome de outras pessoas retrata um pouco a situação.

A ficção virou realidade em mais uma sandice americana. A empresa External Heart Drive oferece o mesmo serviço do filme: cartas personalizadas escritas à mão. Para fazer o pedido, preenche-se um formulário com nome, destinatário e adendos sobre o conteúdo. Aceitam desde pedidos de desculpa até declarações de amor. O serviço é gratuito, mas todas as cartas são colocadas no blog da empresa – sem nome e endereço, claro.

E cá estou eu sentado no Serafim, um dos meus bares de estimação. A porta fechada do Correios – a agência funciona normalmente, mas já estava fora do horário de expediente – me fez pensar nas cartas escritas à mão, na troca de correspondências de grandes escritores, loucos e outros gênios. A que mandei para o Polo Norte, Papai Noel jamais respondeu. Lembrei da última, pensei na próxima. Talvez não espere nenhuma data especial, sei lá. Só me falta saber exatamente qual é o endereço de Camila.

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