Insubmisso, porém incômodo

In Búzios, Cabo Frio por Eva LartigueDeixe um comentário

Por Fábio Emecê

download

 

0004msOlho para a lauda e vejo um monte de frases desconexas. Um gole de café para ficar acordado. Um disco de rap no talo e vamos lá rabiscar. Entre escolhas de vocábulos e lembranças sobre coesão e coerência, lembro que nem serei responsável direto por essa lauda. Ganho uma grana para consertar textos para intelectuais renomados receberem os louros.

As vezes são políticos ou empresários. Que seja, ganho uma prata para as palavras estarem bem no concerto de convencimento de pessoas. A maioria das vezes peço para o cliente escrever o que pensa na lauda e partir da matéria prima, fazer o que tem ser feito. Fomos condicionados a fazer o que tem que ser feito desde sempre, senão a gente morria, não, morre, mata, sofre.

Direcionar, pois é, direcionar, isso não é admitido, mesmo que façamos, não é admitido. Um cliente desses renomados, disse que os pretos não tinham como produzir material intelectual. Um poeta de merda que dependeu de um preto e de uma preta para desenvolver sua escrita, afinal o primeiro romancista brasileiro foi preto e a primeira mulher brasileira a escrever um romance foi preta. Ah, o fundador da Academia na qual ele se esgueirou para ter uma cadeira de imortal, também era preto.

zemaria3E o desgraçado é meu cliente, mas eu não redigi esse texto dele. Tenho ética, afinal, também sou preto. Deveria expor o sacripanta. Preciso pagar as minhas contas, sustentando os alicerces dessas porras. Os pretos sempre sustentaram, né!

Qualquer poema sujo nunca vai inibir nosso espírito insubmisso, por isso incomodamos, até os imortais. Preciso de mais café, pois o disco está acabando e a lauda tá quase completa. Ainda estão nos devendo. Chegou a antologia de autores pretos que fizeram literatura ao longo da história. Ih, identifiquei um plágio… ah, não posso contar quem plagiou senão perco clientes!

Deixe um Comentário