O correspondente do Perú no Céu

In 33 anos do Perú Molhado por Eva LartigueDeixe um comentário

kuck (4)“Deus criou este mundo. O homem, todavia, Entrou a desconfiar, cogitabundo… Decerto não gostou lá muito do que via… E foi logo inventando o outro mundo.” Mário Quintana

Por Cláudio Kuck (1942-2010)

Deus existe. Pode se preparar, Sandro Peixoto (ex-coveiro, ex-repórter do Perú Molhado e atual empresário do ramo de bebidas de Búzios, única pessoa mais ateia do que eu que conheci quando era vivo).

Mas não se preocupe, continue fazendo suas piadas de religião, que ninguém aqui se importa, inclusive achamos engraçado. Isso vale para o Porta dos Fundos também, assim como para os chargistas que retratam com humor um dos muitos filhos do Senhor, Maomé.
A turma aqui em cima só não gosta muito de fundamentalismos, de quem mata em nome de sua crença ou rejeita o comportamento dos outros em função da religião. É quase como se Deus fosse ateu, o cara não tem grilo nenhum. Bem diferente do que as pessoas pensam (e temem).

Portanto, turma aí de Búzios, terra de porra-loucas, malucos, transgressores, artistas, bêbados e poetas, podem ficar tranquilos. O Céu está à espera de vocês.

Mas mesmo por aqui, ainda conservo alguns hábitos de outrora. Adoro nariz-de-cera, por exemplo. Para quem não sabe, esta é a forma romanceada de começar uma reportagem, antes de se abordar o tema da matéria propriamente dito.

Fazia muito isso nas minhas reportagens na extinta revista O Cruzeiro. Hoje em dia, infelizmente, a técnica não é mais tão usada. Antes eram Nélson Rodrigues, Millôr, Paulo Francis, Rubem Braga… Hoje em dia é Gregório Duvivier e Rodrigo Constantino.

Lembro de cobrir, no lombo de um cavalo, uma caçada à onça no Pantanal. E do Prêmio Esso que ganhei por uma reportagem sobre contaminação alimentar. Que saudade!

Trabalhei em muitos outros lugares, na antiga Veja, Globo, Folha, Gazeta Mercantil, Estadão, JB… Fiz reportagens sobre a Transamazônica, aldeias indígenas, garimpo e grupos de extermínio no campo. Entreviste o Fidel Castro e o Luis Carlos Prestes.

Morei em Porto Alegre, Rio, Londres e Brasília. Fiz grandes amigos no jornalismo: Etevaldo, Zequinha, Britto, Arthur, Moa, Ascânio, Flora, Isabel, Ed, Lucia, Marcão e muitos outros.

E claro que nesta lista de afetos, não poderia deixar de mencionar Búzios e o Perú Molhado: jornal fundado há 33 anos (mesma idade de meu filho Denis) pelo meu grande amigo Aníbal e a cidade onde também vivi, me diverti, fiz amigos, me estressei e abreviei um pouquinho a data da indesejada das gentes chegar.

Poderia estar aqui do céu reclamando e xingando, velho turrão, como sempre fiz. Por exemplo: parti antes de finalmente ver a Rua Jacaré, em Geribá, onde tive casa, finalmente calçada. E o problema do lixo continua por lá.

Além disso, os preços estão exorbitantes em Búzios. Surreais. E a cidade, principalmente no verão, cheia de exploradores que querem arrancar dinheiro dos turistas, e dos nativos por tabela também. E como se fosse pouco, o povo continua preguiçoso, as pessoas mal-educadas e o trânsito insuportável.

Mas, ao invés, disso, por incrível que pareça para vocês, prefiro recordar o que vivi de bom em Búzios. Gosto de lembrar as férias que passava com meus filhos ainda pequenos na cidade e os finais de tarde em Geribá, comendo anchova grelhada na barraca da Chiquinha.

A Festa de Sant’Anna do passado, o bairro da Rasa, passeios de barco (sem música alta), os Ossos. O saudoso Ponto de Encontro e o Alberto Fantini. Também teve a turma do Bipase, Flavio, as meninas e meu parceiro Carlos.

E o Perú Molhado, com certeza, também está neste baú de lembranças. Nunca cheguei a trabalhar de fato para o jornal, mas me orgulho de estar, desde a primeira edição, em seu conselho editorial, bem ao lado da Brigitte Bardot.

Saudades das maluquices do Marcelo, das redações pelas quais o Perú passou, do fechamento das edições, de suas capas criativas e de sua irreverência. Pelo maior jornal de Búzios entrevistei escritores, políticos, gente comum e até o rei da Noruega. Cascateei muito também, que era o que mais gostávamos de fazer.

Foi no Perú que um amigo de meu filho Denis, um tal de Lauro Neto, excelente jornalista mas um pouco machista demais para o meu gosto, escreveu um bonito artigo sobre mim logo após minha morte.

Quatro anos depois, fui eu que recebi o pai do Lauro aqui em cima, mas ao contrário de mim, ele já sabia há muito tempo da existência de Deus e entrou direto, sem ter que passar um bom tempo na sala de espera.

Fui correspondente informal do Perú em Londres, Brasília e até em hospitais de Porto Alegre. Agora, sou correspondente do Perú no Céu.

Aqui, aparentemente, não tem nada demais. Às vezes, se assemelha até a um pôr-do-sol no Bar do Gordo, em Manguinhos. O nosso Aníbal de vez em quando aparece. Mas não precisamos mais de bebida, pois o Céu já é um barato.

Estamos esperando por você, Marcelo.

Só não tenha pressa em chegar.

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