O Perú e eu

In 33 anos do Perú Molhado por Eva LartigueDeixe um comentário

DSC03777Por Caroline Moreira – diagramadora do Perú

“Comecei a diagramar o jornal em 2002, quando trabalhava na Usina Artes Gráficas com Alan Câmara. Lembro-me muito bem da primeira matéria diagramada: era sobre um médico, sobre miomas, edição 529.

Eu tinha 20 anos, tinha acabado de entrar pra faculdade de Ciência da Computação e não sabia nada sobre a função ou sobre como seria trabalhar com Marcelo e companhia. Confesso que as coisas que ouvia não me animavam muito, mas encarei o desafio. Afinal, precisava pagar a faculdade.

Naquela época, por incrível que pareça, o Perú era organizado, graças à querida Nélia. Ela já me trazia tudo organizado: uma pastinha para cada assunto era criado em seu disquete ou zipdrive. Cartas, classificados, proclamas, agenda, fotos já nomeadas, anúncios… Bem diferente de hoje em dia.

Fui entrando no clima do fechamento aos poucos. Eu começava a preparar o jornal e Alan finalizava, fazia a capa e tratava as fotos. Eu ficava até às 21h; ele varava a madrugada.

Nessa época fazer o jornal era bem desgastante. A gente começava na segunda e só terminava na sexta… era feito em doses homeopáticas. Passava a semana toda escanendo negativos e fotos. Ainda não havia a máquina digital. Todo dia, Nelia trazia alguma coisa pra fazer: um classificado pra colocar… um anúncio pra preparar…

Em 2007, Alan fechou a Usina e eu assumi sozinha toda a diagramação do jornal. Uma responsabilidade imensa. Nesse momento eu já estava em sintonia com todo o processo, mas tratar as fotos ainda era uma coisa difícil de dominar. Cada vez que o Perú mudava de gráfica, era um tormento até achar o jeito ideal de tratar as fotos. Não é só técnica, tem o tal do feeling também.

Casei em 2008 e me mudei para Cabo Frio. Começava então o pior momento da minha relação com o Perú. Nesta época também trabalha no escritório do Grupo Chez Michou com a Bárbara Brandan. Não agüentei o pique. Sai do Chez Michou com menos de um ano de casa. Dividia-me entre dois empregos, casa nova, rotina nova, marido, cachorro, periquito e alguns freelas… meu dia-a-dia era puxado. Em dia de fechamento chegava em casa tarde da noite… meu marido começou a não gostar… Marcelo muito menos, porque cada dia dava menos atenção pra ele.

Com o tempo fui “adestrando” Marcelo pra seguir meu roteiro. Hoje em dia faço tudo na quinta-feira. Quer Marcelo queira ou não. Com o tempo aprendi a não ceder. Marcelo é muito espaçoso, abusado e sem noção. Se deixar, ele suga toda sua energia ao longo da semana. Se o jornal é especial ou tem mais de 24 páginas, até cedo mais um dia. Fora isso, não. No Perú não há férias, feriado ou algo parecido.Trabalhamos pra cacete pra botar o jornal na rua.

Ao longo desses mais de 12 anos, muita coisa mudou. Muita gente passou pela redação, mas poucas ficaram.Talvez eu seja a única a ficar tanto tempo.Poucas pessoas conseguem agüentar o temperamento do Marcelo, suas manias, seu jeito de trabalhar, suas exigências. Eu consegui, não sei como, entendê-lo.

Hoje em dia consigo fazer o jornal sozinha, do jeito que ele gosta, mesmo quando ele não está por perto.Quando ele viajava, a incumbência de fechar o jornal ficava comigo e Sandro. Antes de viajar ele me fazia mil recomendações, pedia para controlar o Sandro e não deixar o Perú ficar chato.Tinha que ter irreverência.

O Perú e Marcelo são uma coisa só. Não dá pra falar de um sem falar de outro.

Eu pego muito no pé do Marcelo, por N motivos. Toda quinta-feira é uma zoação só. A gente trabalha muito, ganha pouco, mas se diverte. Ele tenta nos agradar com doces, picolé, empanadas e tudo mais que possa saciar nossa fome.Trabalhamos de 10 da manhã até quase 10 da noite sem parar.

Poderia escrever um livro sobre tudo que passei nesse jornal, as coisas que aprendi, todo o conhecimento que ganhei, as pessoas que conheci, as amizades que fiz. Mas vou tentar encurtar a história.

Eu já tentei sair do jornal inúmeras vezes, mas não consigo. Cortar esse cordão umbilical é difícil. Já tentei achar alguém pra ficar no meu lugar, ou pelo menos para dividir o trabalho, mas não é uma tarefa fácil. Já passaram muitas pessoas por lá tentando pegar a manha de fazer o Perú, mas ninguém agüentou. Não posso me dar o luxo de tirar férias, de ficar doente ou simplesmente faltar o trabalho. Se não, não recebo no fim do fechamento.

Mas já avisei Marcelo: quando os gêmeos chegarem, eu caio fora. A sorte dele é que a cegonha tá me sacaneando.”

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