Os Jornais e os seus Donos – o Nosso Querido Marcelo Sobre Tudo

In Brasil, Búzios, Mundo por Eva LartigueDeixe um comentário

Por Mark Zussman

(Esta matéria foi escrita logo depois da morte do fundador deste jornal. Foi por nós congelada e a publicamos somente agora – para incentivar outras reflexões sobre a genialidade do nosso saudoso Marcelo.)

Marcelo 1

Sempre tive um fraco por revistas e jornais (geralmente alternativos) que cobrissem nada mais do que nominalmente as suas áreas de interesse declaradas (política, cultura, moda, sexo, uma determinada cidade ou bairro) mas cujo verdadeiro foco incidisse sobre si mesmas, e essa preocupação de um veículo com seu próprio umbigo sempre era mais intensa, e portanto mais absolutamente fascinante, quando o dono de um desses veículos tinha uma personalidade extrovertida ou, melhor, exibicionista e não reconhecia limites entre ele mesmo e o veículo. No caso do Perú, a confusão do dono com o veículo e a preocupação do veículo com ele mesmo (ele o veículo e ele o dono) deve ter muito a ver com o fato de o Marcelo ser filho de psiquiatras ou psicanalistas, nunca soube exatamente qual. Parece-me provável que essa herança meio maldita esclareça muito.

Premiere of Howard Stern's "Private Parts"Antes de eu conhecer o Marcelo, o maior gênio no campo em questão, entre os vários que conheci ao longo de uma vida longa, era Al Goldstein, que, em 1968, tinha fundado um tablóide em Nova York chamado Screw, “screw” sendo em inglês, minha língua natal, não somente “parafuso” mas, como verbo e substantivo, também uma referência a uma forma agressiva do ato sexual. (”Screw you” = Foda-se ou Vá à merda.) Inicialmente, Screw era pouco mais do que um veículo para os anúncios classificados de trabalhadoras do sexo, mas aos poucos desenvolveu um conteúdo editorial às vezes brilhante e não somente sobre sexo. Os tarados liam mas também uma parte expressiva da intelectualidade nova-iorquina lia, homens e mulheres corajosas (não que os tarados e a intelectualidade sejam categorias mutuamente exclusivas). Até escritores influentes como Gore Vidal e Norman Mailer às vezes contribuíam com peças ou comentários ou pelo menos eram entrevistados – e feministas ferrenhas mas, ao mesmo tempo, hostis à hipocrisia, como Germaine Greer, também. Mas aos poucos Al, o fundador e o dono, surgiu não somente como a voz do jornal mas igualmente como substituto ou representante do leitor, e isso era a parte mais emocionante.

Numa época em que tudo era consumismo, havia, em relação ao sexo, como também em relação aos automóveis de alta performance, às mansões de luxo, à eletrônica de consumo, e assim por diante, os ricos e os gratificados, de um lado, e os pobres e os excluídos, do outro. E Al era essencialmente um pobretão que, por acaso, virou um rico com direito a mansão e a Rolls-Royce, mas nem por isso se sentia como um rico. Como na persona que Woody Allen começava a esboçar no mesmo período, Al era uma libido, um id, tempestuoso, quase que fora de controle, dentro de um corpo inglório, infausto, até mesmo risível, que não suportava facilmente as revindicações desse já referido id. Mas, enquanto que a persona de Woody compensava pelas deficiências físicas com um determinado charme sedutor, com uma enorme capacidade de persuasão (e o verdadeiro Woody, na vida real, com um irresistível gênio criativo), Al, por sua vez, tendia simplesmente a bradar. Al tinha charme e às vezes usava-o, mas, de preferência, vituperava.  Quando não fazia a caveira das mulheres que o rejeitavam, denunciava o restaurante chique que não servia a picanha dele como ele queria ou a loja que lhe vendera um saca-rolhas da mais alta tecnologia que, logo de cara, quebrou.  Quem entende inglês poderia ler o obituário que o New York Times publicou quando Al morreu em dezembro de 2013 (em http://www.nytimes.com/2013/12/20/nyregion/al-goldstein-pioneering-pornographer-dies-at-77.html?_r=0). É claro que Al e o NY Times ocupavam duas praias bem longe uma da outra, mas o Times entendia perfeitamente a importância cultural dessa fera estranha.

SCREW1102_hellman-600x753Marcelo obviamente era muito diferente do Al. O Perú, apesar de ter tido um nome tão desavergonhado quanto o Screw, não é, e nunca era, um veículo de sexo explícito mas de sexo só ocasional, e Marcelo não era irritadiço e colérico e alienado como o Al. Pelo contrário, Marcelo era brincalhão e extremamente sociável, e Marcelo não somente almejava a vida boa como também Al almejava a vida boa; para Marcelo a vida boa simplesmente estava logo ali, ao alcance da mão. Isto é uma coisa que diferencia os brasileiros – e também os estrangeiros abrasileirados como o Marcelo – dos americanos. Para os meus (ex-?) conterrâneos americanos, a felicidade está sempre do lado de lá de dois ou três obstáculos, talvez um charco, talvez um cipoal. Para os brasileiros e as pessoas com a boa fortuna de terem sido abrasileiradas, a felicidade é a configuração padrão. Configuração da fábrica. Não é uma coisa para ser ganha por muito esforço e suor como na visão e na experiência de muitos americanos e muitos europeus. É direito de nascimento. Não conhecia o Marcelo suficientemente bem para afirmar, com certeza absoluta, que ele achava que, apesar de a prosperidade ser muito boa, uma pobreza, ou uma pobreza relativa, também podia ser muito boa, desde que se tenha o direito a comer à vontade, sem balança, em lugares tão agradáveis como o Bar do Mangue e Barceloneta, amigos comensais, e um tablóide para publicar as suas fotos, os seus pasquins e as suas fofocas. Mas parece ter sido esse o caso.

Coloco Al e Marcelo no mesmo saco só porque nunca conheci editor que mais do que eles dois se confundisse tanto com a sua própria publicação. Al era o pobre perdedor – sexualmente frustrado no meio dessa farra sexual que era Nova York, pelo menos aparentemente, nas décadas do auge do Screw – e os outros excluídos se viam nele e aplaudiam o triunfo dele sobre os bonitões e charmosos cujo sucesso com a mulherada nada custava. O significado do Marcelo, repito, foi totalmente diferente. Mas eu acho que muitos de nós aqui em Búzios nos víamos nele pelo que ele, não como dono do Perú mas como sempre a personagem principal nas páginas do Perú, representava – ou seja, liberdade, quanto mais anarquista melhor, criatividade, esperteza, rebelião, humor (às vezes zombeteiro, às vezes rabelaisiano), um esquerdismo generoso mas não irritantemente militante, um prazer na vida típico dos moradores no que se localizava menos na praia do que num botequim ou em qualquer outra espelunca depois do pôr do sol  (coisa que os forasteiros que vêm para a praia nunca vão entender). E é importante lembrar que Marcelo, nas páginas do Perú, também era viajante assíduo, promotor incansável, equilibrista financeiro, portador de várias doenças crônicas, beneficiário reincidente da generosidade da medicina cubana, pai da Eva, antagonista (na novela mais duradoura da cidade) do deplorável Rui Borba, argentino às vezes totalmente ininteligível e portanto e por outros motivos palhaço, e até judeu ortodoxo quando o Rui o tachou de ser judeu sujo. Aqui no Brasil, alguém, salvo Chico Anysio, interpretava tantos papéis?

Eu lamento a morte do Marcelo pela perda dele em si. Lamento também porque, pelo menos inicialmente, eu não conseguia imaginar Búzios sem o Perú nem o Perú sem Marcelo. Quando um indivíduo carismático some como o princípio organizador de uma publicação, ou de qualquer outro tipo de imprensa, abre a porta para o corporatismo e aí, no lugar de uma personalidade forte e original, se encontra tipicamente uma personalidade, ou personalidades, totalmente falsificadas. Patos falantes. Ratos falantes. Tucanos falantes. Em vez de uma voz, humana e individual, porta-voz. Obviamente, o Perú teria que mudar e evoluir, porque ninguém – nem o Sandro nem o Hamber nem o Victor – poderia substituir o Marcelo como personificação da nossa idéia de quem somos. Talvez o Perú não sobrevivesse. Talvez, tendo sido “irreverente”, agora se tornasse irrelevante. Mas as primeiras edições desde a morte do grande Marcelo não têm sido nada más, não. E, na verdade, o risco de corporatismo é bem baixo. Os comerciantes de Búzios nunca fizeram o suficiente para sustentar o Perú, financeiramente, durante a vida do Marcelo, e, pelo que vejo, não estão se apressando para preencher o buraco agora. Agora estou começando a pensar que, desde que a Carol, a grande diagramadora do Perú, não desista, tudo pode se equilibrar, tudo pode dar certo.  A propósito, a Christina Motta sabe esculpir uma boa barba argentino-cubana?

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