“Recordar é viver”

In Esportes, Mundo, Noticias por Eva LartigueDeixe um comentário

Gustavo e João SaldanhaPor Gustavo Medeiros

Sou nascido em 1964. Portanto, em setembro, dia 3, completo meio século de vida. Tive privilégio de começar cedo no jornalismo. Aos 15 anos, já circulava por todos os cantos – redação e oficina, do extinto e muito querido Jornal de Petrópolis, na região serrana, Estado do Rio. Meu tio, por parte de mãe, era o advogado do Jornal. Tinha livre acesso a tudo. A partir dessa idade, me apaixonei rápido pela profissão. Depois da escola – Colégio São José, minha vida se resumia a redação do jornal diário. Convivi cedo com grandes profissionais que me ensinaram muito. Levou tempo para aprender o básico das técnicas de redação. Fui em frente. Como praticava esporte, o setor escolhido para os primeiros passos na profissão, foi a Editoria de Esportes do JP.

Aos 17 anos, o então editor geral do jornal, Marin de Toledo Melquídes, me escala para entrevistar a primeira celebridade nacional ligada ao jornalismo e principalmente ao esporte. Quem era? João Alves Jobin Saldanha, ou melhor, João Saldanha, apelidado pelo também jornalista e escritor brasileiro Nelson Rodrigues, como ‘’João sem-medo’’. Meu encontro com esta grandiosa figura, aconteceu numa tarde de muita chuva em Petrópolis, em 1981, na tradicional Casa D’Ângelo, ainda em funcionamento, no centro histórico de Petrópolis. Ele já me esperava. Acompanhado do fotógrafo Roque Navarro, hoje Tribuna de Petrópolis, conversei durante seis horas com o João, que em 1970, foi o responsável pela classificação do Brasil na Copa do Mundo. Como ferramenta, utilizei um gravador, que chamávamos de ‘’tijolão’’. Foi uma tarde inesquecível pela brilhante aula dada por uma pessoa tão especial, experiente e simpática. Ele me contou a sua vida, com riqueza de detalhes. Foram quatro horas de gravação distribuídas em cinco fitas cassetes. Elas estão em algum lugar.

Um apaixonado pelo futebol

Nascido em 1917, em Alegrete, no Rio Grande do Sul, Saldanha foi um apaixonado pelo futebol. Amou profundamente o Botafogo, onde atuou por pouco tempo como profissional. De mudança para o Rio de Janeiro com a família, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro. Tornou-se um dos mais ferrenhos opositores do Regime Militar. Formou-se em Direito e Jornalismo. Foi cronista esportivo de destaque no cenário nacional e internacional, iniciando a sua carreira em 1960. Passou pelas emissoras de rádio Guanabara, Nacional, Globo, Tupi e Jornal do Brasil. Na televisão, pela Manchete e Globo, onde apresentou seus comentários esportivos no programa “Dois Minutos com João”.

Em 1969, Saldanha foi convidado a se encarregar da Seleção Brasileira. O então presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBD), João Havelange, alegou que o contratou na esperança de que os jornalistas fizessem menos criticas à Seleção, tendo um deles como técnico.

“João sem-medo” classificou o Brasil para a Copa de 70. Depois foi substituído. Entrevista a TV Cultura, e sabido conhecimento popular, que ele teria sido retirado da Seleção por causa de sua negativa em escalar jogadores indicados pelo então Presidente da República, Emílio Garrastazu Médici, durante o período da Ditadura Militar.

O último atrito foi quando o auxiliar-técnico pediu para sair da seleção, dizendo que era impossível trabalhar com Saldanha. Segundo João Havelange, o esquema adotado por João Saldanha de dois pontas abertos (Jair e Edu) e o meio-campo desprotegido do Brasil, que adotava o esquema 4-2-4, não iria a lugar nenhum.

Depois do primeiro encontro inesquecível com João Saldanha em 1981, mantivemos contato via telefone e por duas vezes, almoçamos juntos no Rio antes de sua morte, em Roma, em julho de 1990. Anos depois, tive outro privilégio de conversar, pessoalmente, com outra celebridade do futebol mundial, João Havelange, então presidente da FIFA. Pedi para ele prefaciar um livro de minha autoria que já está pronto para impressão sobre o Petropolitano F.C., fundado em 1911, frenquentado por ninguém menos que Alberto Santos Dumont, pai da aviação. Em 1962, Havelange havia visitado as instalações do Clube, onde foi super bem recebido, com direito a jantar de gala. Não pude deixar de perguntar sobre o meu amigo João Saldanha. Havelange, de primeira, disse: “… como esse sujeito me deu trabalho. Porém, uma grande figura do esporte brasileiro”. Portanto, “Recordar é viver”.

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