Somos todos República Centro-Africana

In Mundo, Noticias por Eva LartigueDeixe um comentário

high_sz099c26Por Denis Kuck

Por incrível que possa parecer para a oposição, a direita e os reacionários, o mundo não se resume apenas à Venezuela, Cuba e Coreia do Norte. Além da cafona Miami, é claro.

Um país esquecido e pobre da África (com expectativa de vida de 48 anos), a República Centro-Africana (RCA), talvez viva atualmente uma das maiores crises humanitárias do planeta. Uma nação que já sofria com uma miséria aguda, é cenário atualmente de uma brutal guerra sectária e política entre a população cristã e muçulmana, que completou, praticamente esquecido, um ano no mês passado.

A situação beira o genocídio, com milhares de mortos, refugiados e um rastro de doença e terror. Para se ter uma ideia, de uma população de 4,6 milhões de habitantes, a metade do país, 2,2 milhões, necessita de algum tipo de ajuda humanitária.

Quase 300 mil pessoas já se refugiaram em nações vizinhas (Camarões, Chade, Congo e República Democrática do Congo). Além disso, o número de deslocados internos, que tiveram que fugir do conflito dentro do país, é de 650 mil pessoas.

Antiga colônia francesa, a RCA se tornou independente em 1960 e tem uma história marcada por golpes de Estado. Em 2003, o rebelde François Bozizé comandou uma revolta que tomou o poder. O líder acabou sendo eleito posteriormente e assumiu a presidência do país.

A situação na República Centro-Africana se deteriorou no ano passado, quando o grupo Seleka (que é muçulmano, enquanto a maioria da população é cristã), derrubou Bozizé e se iniciou então uma espiral de violência.

Ao assumir o poder, o Seleka impôs um regime de terror e perseguiu cristãos. Entre as atrocidades cometidas, rivais eram amarrados e jogados de pontes em rios para se afogarem ou serem comidos por crocodilos. A França enviou tropas para o país e os novos governantes foram obrigados a abandonar o poder. A situação, no entanto, não se normalizou, muito pelo contrário.

No vácuo de poder em que a RCA ficou, milícias cristãs anti-Seleka formadas anteriormente para defesa, em um ato de vingança, começaram a perseguir, expulsar e executar a minoria muçulmana, com casos de decapitações e mutilações, uma verdadeira limpeza étnica, que ocorre principalmente no interior do país.

Segundo a Anistia Internacional, a natureza abusiva do governo Seleka originou uma violência sectária e ódios sem precedentes, com muitos cristãos atribuindo os abusos anteriores à minoria muçulmana como um todo.

Os soldados franceses, criticados por não terem reprimido as milícias cristãs, continuam na República Centro-Africana, para onde também foram enviadas tropas de uma missão internacional formada por nações africanas. Sua presença, no entanto, é insuficiente para promover a paz.

A ONU diz que o ódio entre as comunidades chegou a um “nível assustador” e que o país vive uma anarquia, “sem justiça, sem lei e ordem fora a oferecida por soldados estrangeiros”.

E o problema não é só a violência. Em um país tão pobre, o conflito piora ainda mais os problemas de saúde, que já são naturalmente graves. De acordo com a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), muitas pessoas perderam tudo e apenas fogem, lutando para sobreviver e necessitando urgentemente de ajuda. Muitos hospitais e unidades de atendimento foram destruídos, saqueados ou fechados, assim como escolas e estruturas de governo.

A MSF alerta de que as taxas de mortalidade estão acima do patamar de emergência e que a falta de alimentos e de atendimento médico provoca um surto de várias doenças, como malária, sarampo, poliomelite, febre amarela, além de desnutrição.

A organização está presente no país com 2.300 profissionais, inclusive por meio de unidades móveis, que alcançam parte da população que se esconde nas matas, sem nenhum acesso à saúde. Mas é muito difícil ajudar a todos. Quem quiser contribuir, aliás, pode encontrar mais informações no site www.msf.org.br.

Associações de imprensa latino-americanas, com a participação das organizações Globo, criaram recentemente a campanha Somos todos Venezuela, para combater ameaças à liberdade de informação no país e ajudar a divulgar a situação local. As arbitrariedades e abusos devem ser combatidos na Venezuela, de ambos os lados, governo e oposição. A situação por lá é grave.

A Anistia Internacional denunciou nesta semana o uso excessivo e até tortura praticados pelas forças de segurança venezuelanas. A deputada Maria Corina Machado, por mais que não se concorde com sua visão política, foi cassada de um cargo para o qual foi eleita democraticamente.

Mas se lembrar do problema de um filho não significa esquecer as agruras do outro.

Acima de qualquer ideologia, não podemos negligenciar também o que ocorre em outros países do mundo, onde a situação é extremamente grave. A comissária de direitos humanos da ONU, Navy Pillay, afirmou recentemente que se a República Centro-Africana não fosse um país pobre, escondido no coração da África, o terrível quadro que se vive por lá teria estimulado uma reação mais forte do exterior.

“Quantas crianças mais têm de ser decapitadas, quantas mulheres e meninas mais serão estupradas, quantos atos de canibalismo mais devem ocorrer antes de realmente pararmos e prestarmos atenção?”, pergunta-se a funcionária das Nações Unidas.

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