Um Japão que não se conhece

In Especial Minamata, Japão por Eva LartigueDeixe um comentário

SONY DSCPor Victor Viana/Marcelo Lartigue

Marcelo (Lartigue), nosso editor, quando saiu há cerca de um mês para participar da Convenção de Minamata, organizada pela ONU, com o objetivo de iniciar um processo de banimento do mercúrio da sociedade, levou consigo, como ele mesmo confessa, muitas ideias positivas sobre o Japão. “ Eu vim aqui acreditando que sabia muito sobre o Japão. Na verdade eu nutria o desejo de voltar fanático pelo Japão, mas não consigo”. Marcelo após o término da convenção vem se dedicando a entrevistar brasileiros que residem nesse longínquo país.

Conversou, como publicamos na edição anterior, com a psicóloga brasileira Kyouko Nakagawa que desmitificou a imagem pacifista oficialmente propagandeada pelo governo japonês, “ O povo japonês tem dificuldades com americanos sim, essa convivência não é tão amistosa como gostam de fazer acreditar. Basta olhar o memorial de Hiroshima e não há como acreditar que se possa esquecer isso facilmente. O japonês é um povo bélico, basta ver quantas guerras o Japão participou. Existe uma suposta aceitação da presença americana por vários motivos e principalmente comerciais e econômicos. Aqui há uma brincadeira de que o Japão é o 51º estado americano. O Japão realmente não deixa de ser um estado americano, pois depende diretamente da economia americana. Chegamos a dizer que se o Estados Unidos espirra o Japão fica gripado (risos)”, disse Kyouko que divide sua vida entre Tóquio e São Paulo onde trabalha na adaptação de crianças (filhos de operários brasileiros) que voltam ao Brasil falando apenas japonês.

Sobre a vida dos operários japoneses, nosso editor relata que é uma vida dura e que, segundo os entrevistados, a esses é vendida uma ilusão por parte das grandes empresas e ao chegarem no Japão descobrem que na verdade estão sendo explorados. Regina Ito, promoter casada com um japonês há mais de 20 anos disse: “ Empresas como a Toyota no Brasil chamam de 300 a 400 pessoas para trabalharem aqui e prometem que pagarão a passagem e muitos são iludidos. Aqui eles tem de devolver o dinheiro da passagem que via sendo descontado no salário deles. É uma propaganda enganosa, dizem para os brasileiros que é ótimo aqui, falam coisas maravilhosas, mas nas fábrica são explorados. Quando a gente consegue ter uma vida social aqui é porque tem família como eu. Mas a vida do brasileiro em geral aqui é muito difícil”. Megumi, uma jovem brasileira que mora no Japão há 22 anos com seu marido e dois filhos completa: “Aqui no Japão é muito difícil para quem tem dificuldade para a língua japonesa. Eles exigem agora que se fale de 30 á 50% da língua japonesa para serem empregados nas fábricas. Quem não tem muito conhecimento acaba sendo levado aos trabalhos mais difíceis”.

Megumi é filha de japoneses, que moram no Brasil desde a década de 60, e mesmo assim não conseguiu adquirir o passaporte japonês, é uma estrangeira. Trabalha em uma loja que se chama “Tucano” no bairro de Turumi, onde vende produtos direcionados os emigrantes vindos dos países da América do Sul. Foi ela que explicou melhor as razões de tantos casos de suicídio de jovens no Japão: “Muitos jovens se suicidam por conta do bullying que existe aqui. Acontece muito quando um jovem não consegue atingir metas ou não se enquadra nos padrões impostos pela escola. O erro está nos pais japoneses que pedem que os filhos fiquem calados e então os filhos, que estão passando por bullying todos os dias, veem que não serão protegidos e se suicidam. Os estrangeiros nesse sentido protegem mais os filhos”.

Outras pessoas entrevistadas contaram que o que acontece muitas vezes é que o bullying parte muitas vezes do próprio professor, “ se ele (o professor) cismar com um aluno ele mandará ele pedir desculpas públicas, mas se esse aluno se nega será perseguido por todo o ano”, completou a simpática Megumi. No Japão é proibido que os alunos usem brinco no que seria o ensino fundamental. Não se permite que se pintem ou usem roupas diferentes. Todos tem de usar o uniforme igual, não podem ser diferentes.

A imagem de um povo religiosamente sereno, em contraste com a religiosidade emotiva de nós latinos americanos, nas narrativas de nosso editor deram lugar a descoberta de um povo supersticioso que teme fortemente a presença de espíritos.

Uma mídia amordaçada 

Por Marcelo Lartigue

No Japão constatei que existe uma censura aos meios de comunicação. O jornalismo japonês é esmagado por uma forte pressão do governo que esconde escândalos de corrupção na política e também o auto índice de suicídio da juventude japonesa .

O desastre nuclear de Fukushima em 2011, por exemplo, a verdade só foi relatada por jornais estrangeiros, ainda assim mediados pelas informações oficiais. As denúncias das consequências do desastre estão sendo denunciadas pela mídia alternativa, o povo japonês pouco sabe dos riscos que correm. O maior problema é que as consequências do desastre de Fukuschima atinge todo o planeta. Estamos falando de um desastre nuclear que é absolutamente sem precedentes, e está constantemente piorando. Segundo mapeamento da Nuclear Emergency Tracking Center a cada dia, 300 toneladas de água radioativa de Fukushima entra no Oceano Pacífico. Isso significa que a quantidade total de material radioativo liberado de Fukushima está constantemente a aumentar, e isso está em constante destruição da nossa cadeia alimentar.

Em última análise, toda essa radiação nuclear irá permanecer por um grande tempo. Estão dizendo que pode levar até 40 anos para limpar o desastre de Fukushima, e, entretanto, inúmeras pessoas inocentes irão desenvolver câncer e outros problemas de saúde como resultado da exposição a altos níveis dessa radiação nuclear em diversas partes do mundo.

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